Essa matéria não é minha. Foi escrita por Regina Navarro Lins para o UOL, e eu achei que podia interessar à vocês e transcrevi ela.

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Comentando a Pergunta da Semana

A maioria das pessoas que responderam à enquete da semana acredita haver algum benefício em ter uma relação extraconjugal. E elas não estão sozinhas.

A socióloga inglesa Catherine Hakim afirmou numa entrevista que ter um caso faz bem ao casamento. Em seu novo livro ela explica porque as relações extraconjugais tornam os casais mais felizes. Nos países com menor taxa de divórcio, os casos extraconjugais são mais aceitáveis e praticados. Ela compara os Estados Unidos com a Europa.

No primeiro, onde não se tolera a mínima escapada, metade dos casamentos termina em divórcio. Na Europa, há uma cultura de que a fidelidade sexual no casamento não é tão importante assim. Isso explicaria porque na Espanha e na Itália, a taxa de divórcio fica em torno de 10%. Nesses países, os estudos revelam a alta incidência de casais em que cônjuges já tiveram um ou mais casos durante o relacionamento.

Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade são muito comuns as relações extraconjugais. Todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, religião – nos estimulam a investir nossa energia sexual em uma única pessoa. Mas na prática uma porcentagem significativa de homens e mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.

A antropóloga americana Helen Fisher conclui que nossa tendência para as ligações extraconjugais parece ser o triunfo da natureza sobre a cultura. “Dezenas de estudos etnográficos, sem mencionar inúmeras obras de história e de ficção, são testemunhos da prevalência das atividades sexuais extraconjugais entre homens e mulheres do mundo inteiro. Embora os seres humanos flertem, apaixonem-se e se casem, eles também tendem a ser sexualmente infiéis a seus cônjuges.”, diz ela.

Durante muito tempo se acreditou que só os homens tinham relações múltiplas. À mulher foi ensinado que deveria fazer sexo apenas com o parceiro fixo. Isso fez com que se sentisse culpada no caso de ter uma relação extraconjugal. Mas quando a pílula surgiu, nos anos 60, e as mulheres entraram no mercado de trabalho, houve uma mudança no comportamento feminino.

Diferente de outras épocas, estudos indicam que o número de homens e mulheres que têm relações extraconjugais se aproxima cada vez mais. E demonstram que ambos os sexos começaram a ter relações extraconjugais mais cedo que nas décadas anteriores. O remorso da mulher desapareceu quase completamente. Pesquisas, como a do jornal americano New York Post, concluíram que nove entre dez mulheres não nutrem qualquer tipo de sentimento de culpa.

Cada vez se acredita mais que as restrições que muitos têm o hábito de se impor por causa do outro ameaçam bem mais a relação do que uma “infidelidade”. Afinal, reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. E o parceiro que se “sacrificou” pelo outro tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a considerar-se vítima, a tornar-se intolerante.

Uma relação extraconjugal pode ser apenas acidental e não rivalizar com a relação estável. Nesse caso não afeta a pessoa nem o casamento, que em alguns casos sai até reforçado. Desconfiar que o outro esteja também tendo um romance com alguém abala a certeza de posse e estimula a conquista, o que pode provocar o reaparecimento do desejo sexual.

É claro que, às vezes, a relação extraconjugal se torna mais intensa do que a do casamento, proporcionando mais emoção e prazer para as pessoas. Nesse caso, ou se aceita que faz parte da vida amar duas pessoas ao mesmo tempo, ou se separa. Seja qual for a escolha, uma relação extraconjugal é sempre melhor do que o casamento sem graça de duas pessoas que desistem do sexo e ficam presas uma à outra por dependência e medo da vida.

W.Reich afirma que nunca se denunciará bastante a influência perniciosa dos preconceitos morais nessa área. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual. Talvez seja hora de deixar de negar o óbvio e começar a questionar se fidelidade tem mesmo a ver com sexualidade.